EM BUSCA DO “SENTIDO” PLENO DA VIDA

P. Anisberto Bonfim
“...Na verdade, Deus não está longe de cada um de nós, porque é n'Ele que temos a vida, o movimento e o ser...” (cf. At 17,27-28).

     Tendo em consideração esta  citação bíblica e também a afirmação de Viktor E. Frankl ( fundador da escola de psicoterapia chamada  logoterapia), que considera “a busca de sentido para a existência”, a principal força motivadora do ser humano, gostaria de partilhar convosco um pouco da minha história pessoal e vocacional. Parto destas referências visto que, consciente ou inconscientemente, sinto que Deus sempre tem me conduzido pela mão e que, desde a minha tenra adolescência, tenho buscado um sentido para a vida e para os acontecimentos e isso tem me ajudado a viver cada momento da vida com maior intensidade e serenidade.
     Sou natural de Umuarama( na lingua indigena significa “terra da amizade”), Estado do Paraná, região Sul do Brasil. Tenho duas irmãs mais velhas do que eu. Porém, meu pai é natural da Bahia e minha mãe de Pernambuco. Ainda adolescentes, eles migraram da região nordeste para o sul do Brasil.
Conheci a SOCIEDADE MISSIONÁRIA DA BOA NOVA, através do P. Eugênio Ribeiro, primeiro pároco de Cafezal do Sul, o qual me acompanhou nos primeiros passos da vocação missionária. Quando estava no ensino médio, foi ordenado  o primeiro sacerdote natural de Cafezal do Sul, descendente de portugueses. Este acontecimento marcou a vida da comunidade visto que nos anos seguintes, um bom número de moças e repazes ingressaram nas casas de formação religiosa e  sacerdotal. Foi neste contexto que me apresentei ao P. Eugênio Ribeiro a dizer que queria ser padre. Ele me entregou um pequeno folheto de propaganda vocacional acerca da SMBN e me encaminhou, juntamente com outros jovens, para um encontro vacacional que aconteceria na diocese.
    Depois deste encontro vacacional e algum discernimento, eu e outro jovem, o Francisco F. Oliveira, decidimos ir para o seminário e fazer o percurso formativo inicial com os Missionários da Boa Nova. No final deste percurso, fui ordenado diácono e nomeado para Moçambique. O Francisco seguiu o caminho do sacerdócio, na  arquidiocese de Belo Horizonte. Neste tempo, um pequeno episódio me marcou muito: antes de ser ordenado diácono e receber a nomeação, estava em um retiro, no mês de julho de 1992, e o regional do Brasil, P. Jerônimo Nunes, veio ter comigo e perguntou-me para onde eu gostaria de ir trabalhar. Como naquela época Angola vivia um período de paz. Então disse logo que queria ir para lá. Ele, porém, disse que Moçambique estava mais necessitado de missionários e que a direção geral tencionava nomear-me para lá. Nesse dia me recordo que, depois de uma espécie de convulção devido ao medo da guerra e da lembrança da morte recente do P. António Rocha, no caminho para a missão do Chiure, aceitei a orientação dos superiores. A seguir, em Outubro de 1992, houve o acordo de Paz em Moçambique e, em Novembro do mesmo ano, a guerra voltou mais forte em Angola. Sendo assim, quando cheguei em Moçambique, em fevereiro de 1993, ainda presenciei alguns resquícios da guerra, mas já se podia andar de um lado para o outro em paz.
     Os dez primeiros anos de secerdote, vivi-os em Moçambique: seis anos em Nampula-Nametil (missão de Mecutamala), e quatro anos no Maputo-Fomento(Seminário da Boa Nova). Foi uma boa experiência nas missões, onde a maior parte dos nossos missionários derramou o seu suor e sangue, na proclamação do Evangelho e na construção da Igreja local. Além disso, tive a oportunidade de conhecer um pouco das raizes da cultura brasileira. As estatisticas mostram que quase 50% da população brasileira é descendente de Africanos. Esta experiência me ajudou a desfazer certos mitos e pre-conceitos que existem no Brasil, acerca das religiões afro-brasileiras, a ao mesmo tempo pude constatar alguns dos valores e requezas humanas e espirituais que o povo brasileiro herdou da África.
     No final de 2002, fui chamado para o Brasil, para trabalhar na formação, no Seminário da Boa Nova, em Contagem-MG. Durante três anos e meio, tive a oportunidade de acompanhar os candidatos a vida missionária, no nosso Instituto. Também colaborei na pastoral da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Nova. Esta Paróquia nasceu junto com o Seminário da Boa Nova, em 1993. O P. Antônio Mamede era formador, no seminário, e ao mesmo tempo começou a organizar a nova paróquia.
     A seguir, estive três anos em Roma. Neste período de tempo estudei Teologia Espiritual, no Instituto Teresianum, e fiz um curso de formação para formadores, na Universidade Salesiana. Com uma bolsa de estudos da instituição alemã, “Ajuda à Igreja que sofre”, uma ajuda da região do Brasil e alguma oferta do povo italiano, pude fazer uma bela experiência, tanto teórica como prática, da rica tradição espiritual da Igreja Católica. Através do estudo e de algumas experiências práticas, como peregrinações e visitas orientadas a alguns lugares históricos e santos, abriram-se-me novos horizontes e perspectivas para a fé e para uma melhor realização do meu ministério. Além disso, nos tempos de Natal, Páscoa e férias, foi-me possivel participar da vida eclesial de algumas comunidades cristãs e conhecer a sua rica tradição religiosa e cultural.
     De regresso ao Brasil, em junho de 2009, colaborei com o P. João Catarino, dos Missionário da Boa Nova, na pastoral da Paróquia Imaculada Conceição, em Iguatemi-MS, próximo à fronteira do Brasil com o Paraguai. Os dois anos que vivi nesta Taróquia também foram importantes para minha vida de sacerdote e missonário visto que pude concretizar alguma coisa do que tinha estudado, mas sobretudo porque pude ensinar e aprender muito com os leigos, através das visitas ás comunidades e aos doentes, através do sacramento da reconciliação e de aconselhamentos, da partilha recíproca em alguns cursos de formação e nos acampamentos (nova escola de evangelização da paróquia).
     Acerca dos acampamentos gostaria de escrever algumas palavras: Quando o Papa João Paulo II convocou o povo de Deus para preparar o 2° Milênio do nascimento de Jesus Cristo e para uma nova evangelização, houve muitas iniciativas da parte de grupos e movimentos da Igreja Católica. Dentre estas iniciativas surgiram os acampamentos. Tais acampamentos foram inspirados na experiêcia que os americanos desenvolveram, nas suas empresas. Através de palestras motivacionais, cursos e encontros de formação humana e psicológica, eles visavam melhorar o relacionamento e entrosamento entre os trabalhadores, a sua motivação e alto-estima, o que mais tarde viria a dar maior e melhor produtividade e rentabilidade nas suas empresas.  Tendo em conta estas experiências, alguns lideres da Igreja, no México e, depois no Brasil, acrescentaram alguns elementos da fé cristã e criaram o acampamento católico visto que este têm por finalidade reavivar a fé em Jesus e motivar o cristão para a prática da religião católica com seus valores e exigências. Através de algumas dinâmicas, desafios, recreações, palestras e testemunhos, o campista (aquele que participa do acampamento) é convidado a fazer uma experiência de Deus e a tomar consciência da sua presença nas situações concretas da vida. Na Paróquia de Iguatemi, o acampamento já está organizado para várias idades: adultos, casais, jovens, adolescentes e crianças. Pelos testemunhos que se ouve de pessoas cultas e simples, médicos e advogados, ricos e pobres, etc..., pode-se perceber as maravilhas que Deus tem operado na vida da Igreja, através dos acampamentos.
     Para finalizar, digo que deixei o Brasil e vim para este novo campo de trabalho em Portugal e vou procurar estar aberto aos planos de Deus e dos meus superiores. Entretanto, vim também com um sonho ou desejo: depois de algum tempo de integração nesta nova realidade cultural e depois de conhecer pessoas  e grupos da Igreja, gostaria de estar convidando algumas pessoas para conhecer e experimentar este novo método de evangelização que tem se espalhado pelo Brasil e por outros países, e, se for da vontade de Deus e dos homens, um dia mais tarde, trazer os acampamentos para Portugal.
     Rezo para que o Senhor da messe me ajude nesta nova missão convosco, cá em Portugal, e que  possamos sentir sempre a sua presença amorosa visto que é isso que dá  sentido pleno à nossa vida e à nossa missão.
     Rezemos  uns pelos outros para que saibamos compreender melhor os desígnos e planos de Deus e colocá-los em prática, para o nosso bem, para o bem da Igreja e do Reino dos céus.

                                                                               P. Anisberto Bonfim,
dos  Missionários da Boa Nova.

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